pequenas cenas II

No centro da cidade, em meio a camelôs, ambulantes e mulheres subindo, descendo e atravessando as ruas carregando sacolas e crianças cansadas, vi você e Cláudia, caminhando de mãos dadas, sol quente, ela tomando água de uma garrafinha plástica.

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Eu te vi esta tarde. E ainda não sei se foi real. Tive a crise, me faltou doçura, fiquei intranqüilo e paralítico diante de tua imagem. O calor deformava o ar e faltaram-me os sentidos. No vazio do desmaio, pensei que poderia ter comido algo antes de sair, como a Claudia me havia recomendado, ou ao menos ter cogitado a possibilidade de te encontrar por acaso. Por destino. Ou por castigo.

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O sol me cegava. Não queria ter ficado de óculos escuros. Queria ter reagido mais espontaneamente, mais feliz. Não entendi muito bem nada. Era o sol. E meus óculos me cegavam, nem sei como. Talvez me protegessem. Lembro de ter focalizado algumas vezes sua testa suada, a barba comprida, sua mão de unhas lixadas no ombro de Cláudia. Nunca os olhos ou a boca. Alguns espaços fechados, suas costas, o chão.  Por ironia, o reflexo da luz me impedia de enxergar Cláudia, como se ela não estivesse presente. Mas ela me olhava, eu podia sentir. Percebi que ela também não queria ver você. Fugia de sua feição perturbada e de seu olhar, que indisfarçadamente ansiava pelo fim do encontro, quando tudo voltaria a ser seguro e confortável, ainda que sob constante ameaça de suas brutais variações de humor. 

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Eu olhava para ela, nunca para você. Não podia admitir que não tinha me preparado para a hipótese de encontrá-la por acaso. Por destino. Ou por castigo. E quando senti sua mão mais pesada em meu ombro, não me dei conta de que te carregava, você duplamente em mim…Seu filho e você, dentro e fora de mim…E ainda pude pensar na estranha poesia dessa observação… 

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Agarrei-me nos ombros de Cláudia, disfarçando a dependência de que já havia me dado conta. Sem Cláudia, você jamais seria possível. Deus me perdoe por te amar dessa maneira. E, te olhando novamente (covardemente), percebi tua presença calando a rua num silêncio de brisa quentíssima. No pouco que vi dos teus olhos antes que um raio de sol os afugentassem para trás das lentes, me vi perdido. Inevitavelmente perdido e triste.  O calor que não mais sentia, a falta de alimentação, o amor nutrido às escondidas, o peso do silêncio e do inesperado embate entre minha mente e uma possível realidade, culminaram em um desmaio. “Fui para Netuno, invisível…” eu diria, se ainda pudesse ao menos te fazer sorrir.  Quando voltei-me à Cláudia, perdi toda verdade. Me perdi em tua verdade. Revelei o quanto te quero num desmaio irresponsável, me amparando, me perdendo, sucumbindo. Acho que chorei. E já não podia mais me ver.  

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