Meu problema com gatos: eles me olham fixamente e nada dizem. Isso não seria necessariamente um problema se eu entendesse a mente dos felinos. Pois um homem-gato, quando me olha fixamente sem nada dizer, me diz muito.
Contei emocionada a história da gata que foi batizada em minha homenagem por um amigo muito querido. Com tanto entusiasmo ele me convidava a conhecer minha xará que, aos poucos, foram rareando minhas desculpas e justificativas para não prestar a tal visita.
Tive, então, que confessar o medo: Sim, eu tenho medo de gatos. No entanto, no lugar na simpatia que todo fóbico espera receber diante da confissão de sua fraqueza, só fiz aumentar a insistência desse meu amigo: “Mas ela é uma gata muito dócil, muito tranqüila, como você, meu amor…deixa de besteira…ela não vai te machucar, eu garanto”.
Não houve escapatória. Era uma sexta-feira a noite do confronto.
De fato, a gata era linda: pêlos branquíssimos e olhos azuis…combinação que o inspirou na escolha do nome e que me deixou lisonjeada diante do elogio vivo à minha frente que, em um primeiro momento, parecia não se importar com a presença de sua homônima.Quase confiante, sentei em um sofá de frente para ela, que, embora permanecesse indiferente, já começava a esboçar aquele olhar de gato a procurar o medo que meu olhar tentava disfarçar.
Mas não tardou para que meus pressentimentos se tornassem uma realidade constrangedora: em um salto apenas, ela estava no meu colo. E fui tomada de pânico.
Meu amigo a chamava ao mesmo tempo em que tentava me tranqüilizar com aquelas frases típicas de donos de animais, “Ela é mansinha, Lôra….Lôra, vem cá com o papai….Calma, Lôra, ela não vai fazer nada, ela só quer carinho…Lorinha, Lôra, olha pra cá, olha…vem cá com papai…ô meu bebê, eu só quero carinhooo” e eu já me sentia incapaz de discernir quando ele falava comigo ou se dirigia ao animal, que evidentemente não havia sido educado a pedir afagos de forma mais discreta.
mesmo os animais mais domesticados não são ensinados a dissimular suas carências…
Mas o terror se instalou mesmo quando o bichano se impacientou com minha frieza diante de seus apelos e passou a esboçar movimentos extremamente ameaçadores com suas patas, que escorregavam da altura de meu pescoço até meu abdômen, contraído de pavor.
Eu pedia baixinho, com medo de ofender a gata, que por favor, Rubi, me tira ela daqui, por amor…misericórdia, ela tá me arranhando…E ele ainda tentava me convencer de que, se eu alisasse a cabeça de algodão do felino, ela se aquietaria e eu teria a oportunidade de conhecer os prazeres de acarinhar um animal e me livrar do medo.
E eu pensava, por que a vontade dela e não a minha? Até que um ímpeto de compreensão e bondade levou meu amigo a retirar a gata do meu colo e, ele mesmo suprir aquela necessidade irracional de toque.
A gata se alojou, então, a meus pés e lá continuou até vislumbrar outra oportunidade de saltar de volta ao meu colo, e quase me provocar uma parada cardíaca pelo susto. Susto que, dessa vez, foi sucedido de um berro estridente e um involuntário empurrão….iúúúúúúúú-aaaaaahhhh!! socorro!
Lembro-me de que era uma noite de verão e as janelas do apartamento estavam todas abertas. A vista do 4º andar daquele edifício era um mar de sobrados e casas térreas da Vila Madalena, e os primeiros edifícios mais altos só podiam ser avistados ao longe.
Após minha talvez desproporcional reação ao susto, a gata, em uma manobra absurdamente ágil, saltou do meu colo ao sofá, do sofá ao parapeito da janela e de lá para a noite.
A cena deixou a todos atônitos…Não coube o riso diante da perplexidade do meu amigo. Ficamos em silêncio por alguns instantes até que alguém sussurrou: Lôra?
Senti que era o momento de encerrar a visita e fui compelida a me desculpar com meu amigo que, inconformado, tentava imaginar o trajeto da gata sobre os telhados, e se perguntava se ela teria morrido na queda…ao que os amigos o acalmavam lembrando da habilidade característica dos felinos e acrescentando episódios e histórias semelhantes de outros bichanos que haviam sobrevivido em circunstâncias envolvendo alturas ainda maiores.
Meu amigo me acompanhou até meu carro estacionado na rua e justificava, como que para si mesmo, que sua insistência no convite era pelo entusiasmo da homenagem… Quando liguei o motor do carro, ainda pude ouvir seus gritos de pai desesperado: “Lorinhaaaa, Lô-raaa, cadê você??”
Mas, contei essa história de forma ainda mais dramática, enfatizando os confrontos que a gata propunha apenas encarando-me com seus olhos azuis indecifráveis, desta vez na tentativa de dissuadir Maria, uma colega de trabalho, da idéia de nos reunirmos em sua casa para o jantar.
Coincidência ou maldição, ela também vive na Vila Madalena e há anos repete o mesmo convite para conhecer seu adorável casal de gatos vira-lata: Regina e Otávio. Seus contra-argumentos à minha história foram certeiros: Regina é cega e manca de uma das patas dianteiras e Otávio é sociofóbico. Invariavelmente se esconde da presença de qualquer humano.
Agradeci o convite com um longo abraço, finalizado com meu olhar de gata escaldada: Maria, eu tenho medo de gatos. Vamos a uma pizzaria?
pê-ésse: para mon chat, o único
Ruiva said,
May 7, 2007 at 5:43 pm
Maravilhoso, lora!